Terça-feira, Janeiro 31, 2006


Ego & Orkut
Eu não tenho orkut.Não mais.Quem for meu amigo de verdade vai saber o que fazer. Quem for mais ou menos vai esquecer.:)

Orkut não é legal. Aquelas pessoas que nunca se importaram com você resolvem aparecer e ser sua fã. Não é legal. Parece uma virtrine. Diferente de um frigorífico, não existe nem a carne exposta. Nem a alma. É como uma revista feminina como essa porcaria da revista Nova. Eu ando querendo me afastar do ego, das satisfações do ego. Não que isso seja possível mas seria uma dádiva não precisar de outras pessoas para me satisfazer.


Helê


Um dia com adélia

Adélia de vez em quando não reconhece sua letra. Sempre fui assim, ou só depois de tudo acontecer? Pensara. Chegou a conclusão que sempre. Sempre fora assim. Algumas vezes diziam, que letra linda. Em outras, que garrancho. Adélia nunca entendia. Às vezes a chamavam de bela, outras de feia. Meus Deus. Qual é a verdade? Quando chega a noite Adélia sente medo de ir para cama.
-Parece que tem formiga na cama. Explica. E ela sente mesmo, essa sensação de formiga na cama. Não é modo de dizer. Ela deita e seu corpo todo entra em circuito elétrico. Se toma um banho quente e abre aquele chuveiro de alumínio sua mão dá choque. Adélia não entende de onde vem esse circuito elétrico que parecem formiguinhas na pele e o coração batendo paulatinamente. Tem vergonha de dizer isso ao médico. Acha que ele não entenderia. Principalmente se ela explicar a teoria dos pensamentos, os que ficam na frente e os que ficam atrás. Os que ficam na frente são as ações. Quando você se concentra você pensa. Quando faz uma prova você pensa na prova. Mas e aqueles pensamentos pululantes que ficam escondidos? São os sentimentos. Por exemplo: Um cantor entra no palco e canta. Ele pensa pra cantar. Mas também pensa : "-Meus Deus. Quanta gente!"
E Adélia tenta coordenar ambos. Ter um pensamento de cada vez. Mas nunca consegue e se frustra. Adélia bebe. -Bebo para relaxar, diz. E quando bebe chora e ri ao mesmo tempo. Por isso sempre tenta beber sozinha. Mesmo porque se sente ridícula. Consegue se enxergar com os olhos dos outros. E nos olhos dos outros sempre enxerga reprovação. Quando bebe se balança, como um bebê no colo da mãe. Como um feto no útero, como uma judia no mulo das lamentações. Assim. Embalada, fica um tempão.Chega a conclusão que é melhor assim, beber sozinha.
A cada dia que acorda e sol está bravo, Adélia suspira e se sente como um filme fotosensível. A cada saída sua para ir para a faculdade ou fazer outra coisa de cotidiano como essa. A cada dia, ela desaparece um pouco como um filme exposto ao sol da pentax k1000.

Helê


Segunda-feira, Janeiro 30, 2006


Woody Allen

No mais recente filme de Woody Allen, Ponto Final, o casal vai assistir "Central do Brasil". E o diretor que no passado disse que não visitaria o Brasil, um país violento. Agora já mudou de idéia. Leu "Dom Casmurro"," Aquela mulher de nome "curioso"(Capitu) e considerou a obra primorosa.
Fonte:Folha de S.Paulo

Bob. My Dear
E no telecine premium está na programação "no direction home,Bob Dylan" De Martin Scorsese.
Bob Dylan mexe com meus nervos(no bom sentido é claro) porque ele é um trovador. Durante algum tempo entrou em circuito fazendo músicas de protestos e tal mas depois voltou a sua origem trovadora.Aquele descaso dele é fantástico.E descobri que o B&S imitou, ou prestigiou, aquele clipe do Bob. Naquela música do B&S If they follow you. Don't look back....Sabe qual? Acho que do Bob a música chama Don't look back. Mas não importa muito. Aquela voz rouca, completamente desafinada fora de contexto na época de Joan Baez e Peter Seeger, etc.
Achei ridículo aquelas meninas dizendo que Bob era farsante por ter vontade de fazer um show ora com música folk, ora com música pop folk misturada com eletrônica. Me explica? Por que as pessoas são assim heim?O barato do Bob era esse. A independência. Parecia que ele ria de tudo e de todos. Mas não de maneira boba. Nem da cara dos outros(talvez). Mas como se dissesse. "Nada disso me importa. Faço o que quero, na hora que bem entender". Sem rédeas. E mostrou isso quando parou seu carro depois desse show frente a uma multidão e perguntou:-Quem me vaiou? Qual de vocês me vaiou? Nenhuma se rendeu. Acho que ele já esperava.

PS: E parece que esse ano ele vem ao Brasil.Preparem o bolso.


Helê


Domingo, Janeiro 29, 2006



Com licença, vou descansar nos seus ombros,não demoro tá?Me espera? Fechei com chave de ouro o conto aí de baixo.E agora quero descansar ouvindo Jorge Ben, depois de 4 taças de vinho branco.Vinho e Jorge Ben combinam?.Já volto...
01:01Quando conto para alguém que posso ficar até 1 semana sem dormir, me olham como se eu fosse uma mentirosa. Mas talvez eu durma mesmo. No intervalo de tempo com que pisco os olhos.



Helê


O Primeiro Amor de Olimpia

O primeiro amor de Olímpia foi um rapaz que ela conheceu quando precisava muito abraçar alguém. E naquele dia se sentia bem bonita. Emagrecera e usava brincos novos, de madrepérola. Ele pegou nas suas mãos e não largou mais. Ela o sentia invasivo. Relevou. Estava precisando amar alguém. Quando ele sorria, sutilmente mostrava os caninos grandes e os olhos brilhando, insandecidos. Um veneno necessário para as veias cruas de Olímpia. De nada adiantava o esmalte vermelho se o seu sangue percorria puro e bem nutrido. Quando a abraçava, ele abria os braços, bem grande. E ela se sentia abraçando uma vitrine da loja em liquidação. Não havia recheio de vida. Namorar aquele garoto era planejar seu próprio assassinato. O assassinato de uma parte de sua psique que nunca mais voltaria a ser a mesma. Uma parte que deveria morrer, para que ela crescesse. Tinha apenas 16 anos. Quem os via assistia a um filme. Gestos cênicos. Moldados por um sorriso de cera. Olímpia tinha um corpo quase maduro. Ele a tocara sim. E com força. Mas não se pode dizer que Olímpia fora tocada por Leôncio.Ele com aquela espiritualidade fabricada e frívola cheia de afetação.
Olímpia começou a namorar Leôncio porque precisava muito abraçar alguém. Era sempre vista nas festas pendurada no pescoço de Leôncio. Nunca estava a vontade perto dele. Mas ninguém percebia. Olímpia e Leôncio? Foram feitos um para o outro. Era o comentário geral. Olímpia se sentia insatisfeita, mas nem ela mesma percebia. Ficava inquieta. Pedia sempre mais. Mais beijos,mais calor, mais sexo, mais prazer, mais cigarro, mais bebida. Não havia limites para Olímpia. Leôncio começou a dizer que Olímpia o sufocava. O contrário de Olímpia, queria liberdade. Em desespero chamou Olímpia de ninfomaníaca. Mas não era o corpo de Leôncio que ela desejava. Ela queria mais. Mais do que aquele gelo escorrendo nas paredes. Escorria com o tempo.Com o sangue de Olímpia.
Havia ratos no quarto. Ratos e sujeira. Olímpia começara a sentir nojo de si mesma. Enfeiou, deixou o cabelo com raízes por fazer, unhas desfeitas. E as noites eram sempre um pesadelo. Sua cabeça não se adaptava nas curvas entre o braço e o peitoral de Leôncio. Era impossível dormir assim, pois, ou escorregava para baixo e acabava no colchão ou se colocava muito em cima do peitoral duro de galo de Leôncio .Preferiu não insistir.Quando ficava insone seus olhos brilhavam muito, porque pestanejava mais, e conseguia contar as inúmeras sombras refletidas no teto. Um dia chegou a pensar que o televisor tinha alma de tanto que a sombra dele brilhava no teto, brilhou o tempo que ficou hipnotizada olhando. Sonhava sempre com um velhinho com cara de frágil, e quando ela o tocava ele a mordia.
Cada dia alí era pior.Leôncio começou a dizer que a comida de Olímpia é ruim. Que ela estava engordando. E passou a dizer que aquela amiga dela , a Ana, é que era mulher de verdade. Negava beijos para Olimpia. Negava sexo para Olimpia. O ódio foi crescendo. O sangue poluindo. Olimpia estava insaciada, coisa que sempre foi e nunca reparou. Infeliz. Começou a planejar o assassinato de Leôncio. De um modo bem feminino. Discreto, sorrateiro e cruel. Premeditado mesmo.
Então ela marcou na agenda, no dia em que se conheceram, 12 de março, matar Leôncio. Escreveu bem grande. Seria antes do almoço, quando ele chegava exigindo mais sangue. Quando ele berrava por mais sangue e menos Olímpia. E assim foi feito, às 11h da manhã, aos 23 anos. Olímpia pegou uma faca bem afiada e cortou a pele do braço esquerdo.Olimpia matou Leôncio. Matou o Anima mas não matou o animal. Olímpia está com veneno no sangue. Agradecida.
E agora freqüenta a igreja todos os domingos para rezar porque carrega a culpa por não sentir culpa nenhuma.
Quanto ao Leôncio. Meio-dia , do dia 12 de março. Quando chegou em casa. Achou o melhor banquete feito por Olímpia. Tinha tudo que uma mesa poderia oferecer, Lagosta, Paella, frutas, pratos de prata, presente do casamento. E não comeu um só pedaço da costela de porco cozida com o sangue de Olimpia, seu prato preferido.


Helê


Parabéns Cosac & Naify
Usar a estampa da cortina da casa de vocês, foi mesmo uma ótima idéia ;)



Dois livros deliciosos para serem devorados.(eu tenho, eu tenho)

E ah. Tantos filmes legais no cinema. Mandarley, segunda parte da triogia de Trier ( a primeira foi Dogville) e Bloom. Do J. Joyce já está em cartaz. Assim como o blockbuster Piratas do Caribe II, eu me amarro em Histórias de pirataria. Podiam muito bem fazer um filme sobre a Atlântida. De W. Scott Elliott.
Helê


Sábado, Janeiro 28, 2006




E o itunes?
-Ah, vai muito bem , obrigado. Não pára de ouvir mazzy star
Helê


Quem disse que não vivo?


Quando uma pessoa qualquer pede alguma informação,onde fica tal rua, isso e aquilo, Adélia esconde o olhar. Como quem preserva o último ouro que lhe resta. Semicerrado ele encontra seu lugar. Meio acordada, meio dormindo. Quando dorme com a janela aberta, acorda mais cedo que o normal e pinta os olhos de preto, como uma maníaca, contrastando com a pele pálida e áspera, com a boca em carne viva porque puxou a pele superficial queimada do sol. Ou mesmo quando permanece insone, absorvendo o cheiro perigoso das damas da noite.
O que você quer saber sobre Adélia? Sua idade? Seu currículo? A música preferida? Essas coisas que encobre a identidade. Adélia responde em um tom grave, oblíquo:
-Sou alguém. E estava sendo espantosamente sincera na resposta. Alguém que chorou ao nascer,berrou tanto que perdeu 1 kg. Adélia, que não era Adélia ainda, não queria ser Adélia. Depois, ao crescer, mascarou sua dor procurando gente, amores, prazeres mentirosos. Cansou. Descansou. Encontrou a permanência na febre, na solidão opcional, na dor. Seu fim poderia ser agora. Mas tem essa fita imaginária que enquanto possui cor, prende os pés de Adélia no chão. Essa fita que definha a cada dia. Experimentou da água do mar. Conheceu todos os fenômenos do mundo real. O balançar da rede. O barulho das teclas da máquina de escrever às 5h da manhã do pai. O ritmo lento e forte do colo seguro da avó índia. O olhar reprovador da avó alemã porque queria repetir o doce de banana. E da mãe escuta:
-O homem que casar com você terá que ser um santo.Talvez tenha mesmo. E ela conta todos os dias as notícias desastrosas do jornal pela manhã. Quer que Adélia tenha medo do mundo. Mas Adélia não tem. Depois diz que seu café é o melhor do mundo e conta os sonhos malucos que têm.
Passou a colecionar nomes escritos nas capas dos livros encontrados em sebos. Esses que foram de pessoas desconhecidas, Rosely Aparecida, Eloísa, ah são tantas. A maior parte escrito com caneta preta na diagonal, quase sempre acompanhando a data, 1981, 1960, e por aí vai. Veio a adolescência e trouxe com ela as fantasias, esperas, decepções, novas ilusões, vaidade, mentiras, orgasmo, traição, a dor, como essa foi forte. E o amor. Ah o amor. Daquele que não cabe em ninguém. Depois disso só virá a repetição sucessiva dos mesmos erros e despespero. A busca desenfreada pelo mesmo prazer sentido. Nada acontecerá de novo. Pode pintar seus cabelos com cores cada vez mais diferentes, com a esperança de achar alguém perdido, uma sombra que seja, de alguém diferente de Adélia. As cores sim, são infindas. Pode fumar loucamente para conseguir alcançar o ritmo frenético do seu coração ou cantar uma música que não sabe de onde veio porque não tem com quem desabafar. Brincará de conquistar rapazes cada vez mais novos .E pode imitar as outras garotas, e namorar os rapazes apenas para ter algo pra fazer sábado a noite. Alguém que a leve pra jantar, ir ao cinema. Mas sempre com aquela pontinha de dor e desespero, na qual falei acima. Foi para a faculdade, e não se deu por satisfeita. Não encontrou o que buscava. E a mesma sensação dos tempos de escola permanecia quando aos 9, cansada das brincadeiras infantis das crianças da escola, disse ao seu pai: - Pai, quero me aposentar. E assim, foi decretada sua postura às instituições de ensino. Sempre deu de ombros. Fez descaso dos eruditos. E por vezes. Sente-se assim. Meio erudita também. Deslumbrada. Contemplativa frente a um Caravaggio. Sem zombarias. Iludida opticamente. Mas ainda tem o futuro. Pode se casar, e vão jogá-la na piscina, tomará banho de champanhe. E talvez tenha filhos. E se assim for, ficará velha vestida em uma anágua bege. Tocarão seu seio e não sentirá mais nada. Amorfa. Ou cantará " I've been let down", colecionando cremes anti-rugas, vestida com uma camiseta escrita "Hot Stuff".
Quem disse que Adélia não vive? Sua pele quente. Não cultiva ilusões(não mais). Apenas se afasta de pessoas que usam como desculpa para a falta de vida, a frase "A vida é curta, tem que aproveitar".Ela não é curta. Você é que é. Sua pele é decadente. A vida não. Ela continuará quando você não estiver mais aqui. Dando de ombros pra você. Ela não precisa de você não, se é o que pensa . Você é que precisa dela.Loucamente.

Agradecimentos:Adélia. simplesmente alguém.
Helê


Sexta-feira, Janeiro 27, 2006


Perto do Coração Selvagem

Depois que acabei o livro, não consegui pegar outro pra ler.Ele ainda está a mim. Nem mesmo os da mesma autora. Estou digerindo ainda. Esse livro mexeu com minhas tripas.Ele sou Eu. Como a própria autora diz "Tenho um corpo e tudo o que eu fizer é continuação do meu começo; se a civilização dos maias não me interessa é porque nada tenho dentro de mim que se possa unir aos seus baixos-relevos." Me fez lembrar quando li pela primeira vez O apanhador no Campo de Centeio, minha cabeça parecia que a explodir, inchada. Parece que fica na pele, nos nervos e não sai. E são só palavras. Por que haveria de mexer tanto comigo?
Clarisse possui um tempo subjetivo. Quem se interessa por tramas, modo de construção clássico, clímax e o raio que o parta, nem leia o livro. Mas quem lê com as veias, os nervos e sabe muito bem que o mundo exterior é apenas uma paisagem de décor, eu o nomeio leitura obrigatória.

Helê


Segunda-feira, Janeiro 23, 2006



Esse filme relata o romance entre Nora Barnacle e James Joyce, de 2000 , se não me engano.Um site bom para se adentrar mais fundo é esse aqui. O Filme conta com um dos meus atores favoritos, Ewan McGregor e Susan Lynch interpreta Nora. E foi sensação na Irlanda. Fala da relação intensa e apaixonada do casal, que teve dois filhos. Baseado no livro, Nora, de Branda Maddox (Best Seller no país), que tirou das sombras essa mulher que vivia com James Joyce. O Irlandês mais notável do século, e tem um dia só dele no mundo todo, inclusive no Brasil.16 de junho,dia que se passa todo o romance ,"Ulisses". O Bloomsday, o dia de Leopold Bloom, o personagem central do livro.

"Eu posso estar cego. Fitei por muito tempo uma cabeça coberta de cabelos castanho-avermelhados e decidi que não era a tua. Voltei para casa bem deprimido. Gostaria de marcar um encontro, mas talvez não te convenha. Espero que tenhas a bondade de marcar um comigo --se não te esqueceste de mim!" "James Joyce -- Cartas a Nora Barnacle"

As cartas passam, então a se intensificarem, tornando-se mais quentes.Formando uma das maiores correspondências eróticas que se tenham tirado do limbo. No filme, elas são lidas: "Sentia tuas nádegas gordas e suadas debaixo de meu ventre e via teu rosto em fogacho e teus olhos aloucados".


saiba mais clicando Aqui




Helê


Sábado, Janeiro 21, 2006


1.
O sol altivo durante o dia todo, rajando ardente na vidraça .E eu resisto ao dia. O que me mantém viva, o que realmente me mantém ligada à vida , é essa curiosidade toda. De saber o que será de mim.O que a vida fará de mim, o que eu farei dela levando em conta minhas forças.Como aquelas criancinhas frente à contadora de história quer saber o fim antes das outras crianças.

2.
8h da manhã. Exatamente. Espero o sol que anuncia violento e firme sobre as águas pálidas, esfumaçadas. Eu o vejo. Como se fosse a primeira vez.Vez essa que não me lembro. Recriando, renascendo, vivendo. Aqui dentro, já não me cabe tanto ar. Tanto sangue.Tanto pulsar. Cresço. Como quem rasga a pele. Os limites, os extremos. Perco a humanidade. Sem qualidade. Sem ser, sem estar. Sem me sentir bela,sem me sentir feia.Aqui dentro existe essa coisinha que quer se libertar. Quanto mais ela se mexe, mais dói aqui de fora. No mundo dos acordados. Dos vivos. E é assim que vivo os dias. Como se não fossem meus. Evitando o tom heróico da sua voz. Fingindo ser dispensável a sua majestade. Somente quando caio com a cabeça no vidro do carro em algum farol demorado me sinto desejar. E é sempre angustiante desejar. Essa fogueirinha acesa. Seguida da impaciência.Angustiante.Tão viva. Tão minha. Tão Eu.

3.
Céu aberto, nuvens suspensas desenham o céu, decorado com pipas e gaivotas, calmas, mornas e mansas. Pisotear na areia quente fazendo uma dança engraçada.Sorver da água, meio doce, meio salgada. Silenciosa e brilhante. Renascer das águas. Como quem nasce do útero.
Subir na mais alta pedra do cimo para se secar, e pular. Invejando gaivotas.
Fim de tarde, o frescor. Na pele, a febre leve, fresca e pura. Apenas o barulhinho querido do vento. Depois o sono, fino, um véu. Espontâneo, uma criança.

4.

Helê: -Olha, quantas estrelas!
Isabelle: -Os anjinhos.
Helê:-A lua.
Isabelle:- Papai noel.
Helê:- O Cometa.
Isabelle:- Papai do Céu. E a Mamãe do céu? Existe Lelê?
Helê:- Não. Só o Papai.Que eu saiba.
Isabelle:-Não tô entendendo.
** Pois é, até uma criança percebe que a igreja é machista. hehe.



Helê


Quinta-feira, Janeiro 19, 2006




Sean Penn no filme 21 gramas.
Helê


Eu preciso de um trono.
Escutar aquilo foi como um soco no estômago. Por alguns instantes permaneci fleumática. Todo o ambiente desapareceu. O ar se tornou sulfúrico. Fiquei furiosa. Solitária, como uma grande avenida às 4h da manhã , luzes de néon dos motéis piscando e um posto de gasolina refletido no asfalto molhado. O único barulhinho vinha do tilintar da seta do carro. Tic Tic Tic. Quando se está furiosa, as pequenas coisas se tornam insuportáveis. Aos poucos me acostumo com a idéia. Tudo bem se tenho que ser punida pelo descaso. Pelo fracasso. Vou fazendo as coisas que gosto. Estudando inglês, francês e lendo livros bons.
Helê


Terça-feira, Janeiro 17, 2006


Só para estimular
Esse ano comecei a mil por hora. Vou colocar algumas notas de alguns livros e contos que li na praia.E marquei com caneta fuosforecente. Eu tenho essa mania. Por isso sempre compro meus livros. Eu saio rabiscando ele inteiro.é mania mesmo. Indelicado, mas é meu.

"Embora Bertha Young já tivesse trinta anos, ainda havia momentos como aquele em que ela queria correr, ao invés de caminhar, executar passos de dança subindo e descendo da calçada, rolar um aro, atirar alguma coisa para cima e apanhá-la novamente, ou ficar quieta e rir de nada: rir, simplesmente."Bliss de Katherine Mansfield

"Eu também era um criminoso. Me senti um criminoso, um criminoso sorrateiro, ranhento, sardento, inescrutável pelos quatro anos seguintes, até que, vergando sob o peso de minha cruz, me arrastei para a minha primeira confissão e contei a verdade sobre minha vida bestial. Ele me deu a absolvição, e eu joguei fora a cruz pesada e saí para a luz do sol, uma alma livre outra vez." Arturo Bandini por John Fante em Sonhos de Bunker Hill.


"O espelho sobre minha cômoda parecia meio deformado, além de fosco demais. O rosto que mostrava lembrava uma imagem refletida na bola de mercúrio usada pelo dentista. Pensei em me enfiar nos lençóis e tentar dormir, mas achei que isso era a mesma coisa que colocar uma carta suja e rabiscada dentro de um envelope novo e limpo. Resolvi tomar um banho quente.
Não sei se existe alguma coisa que um banho quente não cure. Sempre que estou triste por saber que um dia vou morrer, ou tão agitada que não consigo dormir, ou gostando de alguém que não vou ver durante uma semana, eu desço até o fundo de mim mesma, depois penso:"Vou tomar um banho quente (...) Nunca sou tão eu mesma como quando estou num banho quente" Sylvia Plath no livro A redoma de vidro

"Estava alegre nesse dia, bonita também. Um pouco de febre também. Por que esse romantismo:um pouco de febre? Mas a verdade é que tenho mesmo:olhos brilhantes, essa força e essa fraqueza, batidas desordenadas do coração. Quando a brisa leve, a brisa de verão, batia no seu corpo, todo ele estremecia de frio e calor. E então ela pensava muito rapidamente, se poder parar de inventar. é porque estou muito nova ainda e sempre que me tocam ou não me tocam, sinto-refletia.(...)Era um pouco de febre, sim. Se existisse pecado, ela pecara. Toda a sua vida fora um erro, ela era fútil. Onde estava a mulher da voz? Onde estavam as mulheres apenas fêmeas? E a continuação do que ela iniciara quando criança. Era um pouco de febre. Resultado daqueles dias em que vagava de um lado a outro, repudiando e amando mil vezes as mesmas coisas. Daquelas noites vivendo escuras e silenciosas, as pequenas estrelas picando no alto. "Clarisse Lispector no livro Perto do Coração Selvagem
Helê


Em Alerta
Pressa.O mundo tem muita pressa. Zummmm, do ventilador. O vento que se agarra na cortina. Com pressa. A cortina que se embaraça na parede.Grudenta. Depois disso, um grande silêncio. Se fecho os olhos. Eles tremem. Sedentos de curiosidade. Sempre existe algo mais para ser visto. Que se esconde de você. Mas que na verdade quer que você o procure. Esse algo pode ser feio. Mas tudo bem não tenho medo. Tenho medo do sono. Que sempre me apavorou, que sempre me enganou. Eu quero estar acordada para ver as coisas acontecendo. Para ouvir o que você está dizendo. Para saber se você está me traindo.Não, eu não me entrego ao sono.O teto pode desabar.E pode existir uma barata voadora enquanto eu estou dormindo. Quando durmo fico indefesa. Quero estar em pé, atenta. A espreita.Esperando o inimigo chegar. Sorrateiro.Disfarçado de Perfeito.

Quanto mais eu como mais imoral eu sou.
Quando eu como mais me assemelho a um animal.
Picanha sangrenta. Rasgo com os dentes. Sem pena.
Ultrajada. Me vingo. Daqueles que fazem cena.
Quando eu como mais imoral eu sou.
Em restaurantes de luxo. Talher de prata. Guardanapo de renda renascença.
Não importa o gesto, os bons modos.
Te olho irônica, insatisfeita.
Depois a língua passa sobre os lábios, entre os dentes
e me torno um bicho saguinário.

Helê



O Café da Noite

Aqui não giram sóis
Nem giram girassóis,
Invisíveis avejões
Sempre estão a girar
Em torno de aberrativas
E de monstruosas formas mentais
Como giram esfaimados
Os corvos dos trigais.


Na parede vermelha
Ponteiro de relógio antigo
Giraram muitas vezes,
Giraram para os que deixaram
Copos vazios nas mesas,
Cadeiras em desordem
Partiram para o vir a ser
Antes do amanhecer.


Na arena das quimeras
Giraram as três esferas
Sob luzes artificiais.
Não giram mais.
Não as fazem girar
Os poucos que ficaram
Indiferentes ao vencer
E sem terem o que perder.

Aqui não giram sóis
Nem giram girassóis
No relógio antigo
Se ainda giram os ponteiros
Giram para o nada.
Ficaram esquecidas
As esferas lúdicas
Na arena descorada.

Numa ronda fantástica
Giram sempre os avejões
Giram, giram, sem parar.
Espalhados pelo ar
O tédio, o desencanto,
A morbidez e o desalento,
Sugados dos combalidos
Resíduos do pensamento.


É o café da noite
Na expressão de um gênio
Que tirava das cores
A magia da luz
Iluminando telas,
Gravando em todas elas
Um nome simplesmente.

(H.J. Alvarenga)

Helê


Navy , Cote d'Azur

E eu acho que todas as pessoas. Digo, todas as pessoas de boa índole, deveriam manter diários.Não blogs, Diários. Desses guardados na última gaveta. Contendo revelações nunca antes imaginadas. Tentadoras. Quantos livros seriam publicados inspirados em diários de pessoas sem rostos? No mundo da revista Caras. Quem não está alí, não tem rosto. Sem identidade. Eu não quero nunca estar na revista caras. Minha identidade é essa. Sem rosto.
Eu também acho que todas as pessoas deveriam ter livros de receitas. Eu tenho o meu. Você também tem o seu?Para quando a fome aperta. Ela sempre aperta. Ah, só mais uma dica. Suje a cozinha. Me parece que quanto mais você suja a cozinha, mais a comida fica gostosa.
E eu leio livros sob o sol transpirante. Arturo Bandini se materializa ao meu lado.Eu o imagino cadavérico de tão magro.Me apaixonei pelo Arturo como já me apaixonei por Holden.Mas Holden era muito jovem. Arturo está par a par comigo.
Me sinto cada vez mais sensual nessa nova pele avermelhada. Insetinhos subindo nas costas. Verifico para ver se é apenas o suor. Mas não. Minha pele está como pêssego. Já reparou que quando você lava o pêssego, ele continua seco?Com algumas gotículas na superfície seca. E eu me molho quando preciso me dissolver. E essa noite, com todos os latidos e o fiiiiiiii do guarda, tudo o que eu queria era me dissolver. E o seu sorriso se transformou em giletes. Se me beijar agora eu sangro.Eu não namoraria alguém que não gostasse do meu nome.
lua de silk
Essa noite tive certeza que a lua cairá.Mas ela se esconde quando eu decido enfrentá-la.Minha cama prateada quer que eu me mate essa noite.Mas eu não temo a lua, e sempre decido desafiá-la.Tenho certeza que a lua imita o sol .Ninguém a teme. Invejosa e feiticeira lua . Você desliza pelo céu com seu vestido de seda. Nunca me seduzirá.Eu já tenho meu vestido de renda.
Helê


Quarta-feira, Janeiro 04, 2006


Seu nome em um grão de arroz

Não sei exatamente como vim parar aqui. Ou estou sonhando, ou vim flutuando, flutuante.
Eu fumo, bebo e mesmo assim, sou névoa. Sou carnívora e mesmo assim, sou espectro.Como que nem porco, escondo minha alma nessa carcaça com uma grande camada de gordura, e mesmo assim passo translúcida.
Só me lembro muito bem que acordei na barraca azul, fitando uma mosca sobrevoando o teto.. Meus olhos ficaram por segundos, ou minutos acompanhando seu movimento.Não sei que segundo arrumei tudo e decidi vir para cá.Acordei dentro de um ônibus.Desci na rodoviária, a mala estava pesada para carregar. Pedi ajuda a um ajudante rodoviário.. Tomei um táxi e tomei um ônibus para cá. Estava ardendo em febre. Dopada.
São 4h de viagem até aqui, pareceu 10 min.Cá estou eu, na praia, aérea, quando encostei a cabeça todos que estavam comigo sumiram. Se não conheço alguém , é como se estivesse sozinha.
Devorei o livro "The Bell Jar" numa tacada só. Não é uma grande obra da literatura. Pode haver quem discorde de mim. Sylvia Plath, tão absorta em si mesma.Exatamente como eu. Impossível de quebrar o casulo que separa o o eu do mundo exterior.O interessante é que os livros que me interessam não precisam de marcador de página.De qualquer forma, prefiro a Sylvia poeta.


-Você tem uma veia boa, foi o que a enfermeira disse.
A médica queria me deixar em observação. Eu aleguei que o cheiro da tinta me deixava mais doente. Ela me liberou e me passou uma porrada de remédio de cortisona.

Não sei quando voltarei para casa. Venho aqui quando preciso me recolher. Quando fujo de mim mesma.
Amanhã tomarei um longo banho de sol e molharei o corpo com a água do mar.Me fará bem.

Feliz ano novo.


Helê

São Paulo

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